"Então escrevo, me busco em frases feitas e frases inventadas, colocando uma palavra atrás da outra na tentativa de construir uma lógica, um atalho, uma emoção que eu consiga sustentar e repartir."

Martha Medeiros



Impulso de criar. De crescer. De viver.
Impulso, força única que te leva a caminhos inóspitos.
Impulso que te impede de travar.
Impulso de respirar. Seja ar ou perfume, seja seu corpo ou meus sonhos. Respiro o mundo!
Impulso de me destruir ou de me desacorrentar.
Impulso de correr na praia, no mato, dentro de casa. Impulso de simplesmente correr.
Corremos para onde o mundo nos leva, ou levamos o mundo na nossa corrida ao infinito?
Quem é protagonista, quem é secundário?
Na minha vida não haverá mais secundários. Tudo e todos que escolher serão protagonistas do meu mundo. Correndo, vivendo, respirando. 
Impulso criativo na madrugada.
Impulsividade é o nome do meio do meu signo. Do meu talento. Da minha maior virtude.

Hoje me impulsionaram a acreditar. E acreditando eu vou. Adiante. Ao sei-lá-onde. À felicidade.


Imagem: aqui




Escolhi respirar quando dei meu primeiro choro. Muitos podem dizer que foi apenas um reflexo, um instinto de sobrevivência...mas tenho escolhido respirar desde então. Não, nem sempre foi assim. Muitas vezes (muitas mesmo!), desejei não ver mais a cor do sol, sentir o vento no rosto, beber água e me sentir límpida por dentro. Desejei...mas fiz as escolhas certas.

Escolhi sorrir quando a vida me mostrou que há recomeços. Escolhi recomeçar, e desse ponto veio a transformação. Não sou outra pessoa, e tenho medo desses que dizem que mudaram por completo. Será que nossa essência é tão volúvel assim? Transformei detalhes, pequenas e sutis partezinhas do meu ser e, no processo, descobri que há mais milhões delas para aperfeiçoar. Escolhi amadurecer.

Escolhi mudar de casa, cidade, país. Escolhi também ter um lar, aquele lugarzinho aconchegante que nosso coração fica mais leve e sedento para voltar. Vi que posso. Vi que quero isso. Vi que mereço, assim como todos que existem nesse planeta. Sorte minha ter percebido isso, Quem dera que todos pudessem fazer essa escolha...ou que tivessem coragem para tal.

Escolhi me satisfazer. Quero matar a fome da minha curiosidade, da minha imaginação. Anseio ver com minhas próprias retinas a cor dos morros, a transparência dos mares, a força das chuvas e as palavras estrangeiras que habitam o mundo inteiro. Escolhi nunca mais parar de aprender. Teve um dia em que achei que isso não fosse relevante...mas ora! Como viver sem alimentar o que mais te aperta o estômago e grita de fome? Ah, escolhi certo mais uma vez.

Escolhi também chorar, sem vergonha. Eu choro, simples assim. A intensidade das minhas percepções e dos meus sentimentos é grande demais para guardar tudo no meu corpo. Preciso transbordar, para não sufocar. Escolhi ser sincera comigo mesma. Escolhi sentir.

Escolhi ter paciência. Para viver em comunhão com quem quer que seja, há de se esperar. Me perdi, e acabei escolhendo me anular em nome dessa espera. Por muito tempo escolhi não escolher, para não perder. Escolhi não falar, para não ver tudo ruir. Escolhi errado, e pensei não ter forças para recuperar. Consegui.

Escolhi ser feliz. Plenamente. Parecia apenas uma palavrinha utópica, na moda, mas vazia de significado. Pensava assim por ter escolhido sofrer. E quem pode escolher sofrer nessa vida? Escolhi casa, roupas, emprego, amores. Um amor. Para dar vazão a tamanha felicidade.

Escolho todos os dias coisas irrelevantes e banais. Hoje espero sua escolha para dar um novo sentido à minha própria vida. Notei que não posso escolher por ninguém, nem por você. Vi também que de nada serve o meu desejo, se não for igual ao seu, para que a vida seja conjunta. E escolho continuar escolhendo, o caminho que for, contanto que seja verdadeiro.


Imagem: aqui




Bebo-te aos poucos
Entra por meus ouvidos, uma enxurrada de saliva e calor
Sua presença inconfundível chega direto ao cérebro
E eu sorrio.

Peço mais, repetições infinitas
Incontroladas
Pouco não mais me basta

Provoca um calor em meu peito, trava a garganta
Não consigo falar
Não consigo mais não pensar

Força meus olhos a se fecharem
Minhas pernas a se fecharem.
Enquanto me corrói, borboletas no meu ventre te pedem
Clamam mãos que nunca serão minhas
Nem suas

Faz e refaz meus caminhos por dentro
Sai em forma de riso, olhar perdido, fala embriagada
Alguém poderia acusar-me de sádica
Ilusória
Inocente
Mas talvez seja sua ausência que o transforma em realidade.


Imagem: aqui








Fingimos. Fingimos quando crianças. Fingimos quando adultos. Fingimos gostar de música cool no primeiro encontro. Fingimos ser feministas, anarquistas, entendidas. Fingimos felicidade. Satisfação profissional. Gostar de rúcula. Adorar verão. Ou inverno. Fingimos orgasmos quando o parceiro não finge que te seduz. Fingimos uma família feliz. Dinheiro no banco. Fins de semana na praia. Fingimos sorrisos, roupas, ânimo. Fingimos não ligar. Mas ligamos. Fingimos não ter medo. Nem preconceitos. Nem nojo. Simpatia. Conhecimento. Segurança. Insatisfações, por que não?
Dor.
Fingimos doer como Werther. 
Fingimos morte. Vida. Fingimos gostar da vida que nos obrigam a ter quando sabemos que ela é a morte de nossa alma.
Fingimos não ter medo da morte. Ou fingimos que não vamos morrer.
Fingimos modéstia. Arrogância. Simplicidade. Fome. Sede. Sono. Choro. Choro falso, tão fingido que chega a molhar.
Fingimos calma, ou impaciência. Empolgação, ou serenidade. Desprezo, ou atenção.
Muito, muito desprezo.
Fingimos olhares. Abraços. 
Fingimos amor. Amor. Fingimos amor o tempo todo.



Imagem: We heart it


As palavras estão trancadas. Como um hábito, esconder sensações e opiniões. Sentada à beira da janela, não enxerga a leveza do balançar verde do mato. A sua volta, uma vazia sensação de borrado, mosaico, fragmentos. Um cadeado em sua boca, uma rede de pesca rasgada em seu peito. Vida se esvaindo a cada sorriso anulado pela dor. Uma dor intensa, primitiva e incompreensível.

Ela sabe que não pode, não deve. Segredos, sempre segredos. Segredar a vida é o sucesso. Para quem? Não sabe ao certo de quem ouviu aquela máxima, mas passou a incorporá-la e agora não consegue escapar.
Escapar. Escapar. Para onde?

Não seria injusta alegando ser ruim a vida que ela mesma montou e modelou. Mas ali, debaixo daqueles vidros empoeirados, onde o sol quase não faz questão de passar, a vida não está em sua plenitude. Alguma coisa brota dentro de si, e ela não sabe nomear, ou distinguir, ou superar. Não é tristeza, nem medo, sem sombra, nem descaso. Diriam ser fome ou rebeldia sem causa, o que não se encaixa também. Não é solidão, não é abandono. Há amor, há risos, há nuvens engraçadas, há companhia. O que não há? O que falta? O que a impede de seguir adiante?

Um pássaro tentou voar do ninho. Ainda não estava preparado para aquilo, mas voou, e caiu. Talvez ela simplesmente não estivesse pronta para existir ainda, simplesmente. Mas calou. E sentiu. Sentiu doer no fundo da sanidade. E enxugou as lágrimas, e voltou a caminhar. O dia ensolarado chama, e a plateia pede um sorriso, mesmo que recheado de silêncios.

Natalia Velozo


Imagem: Keys of life 
                (http://weheartit.com/entry/149815945/explore?context_user=Kinkie&page=35)



O que não é dito não se cala.
O que não é visto não se esconde.
O que não é desejado não se esquece.

O que não é discutido não se resolve.
O que não é sentido não permanece.
O que não é cuidado não sobrevive.

O que não é dito não sobrevive.
O que não é visto não permanece.
O que não é desejado não se resolve.
E não perdura.





Silêncio.
Quando todas as luzes se apagam, quando o último boa noite do telejornal é dito, quando até as folhas param de sacudir seus tons de inverno.
Silêncio.
Quando as crianças adormecem - que dádiva!, quando o beijo se separa, quando o susto trava os sentidos.
Silêncio.
Quando o sol se põe, quando o show acaba, quando as lágrimas secam. Quando o "não" é entendido.
Silêncio.
Quando as aves repousam as asas, quando o mar recua, quando a vida evapora.
Silêncio.


Natalia Velozo